NOSSO ESPAÇO

Um lugar para somar, dividir e multiplicar, nunca subtrair.

Um causo de professor

Esse “causo” é real e vou citar as pessoas envolvidas com nomes fictícios.

Em 2018, eu descobri duas coisas importantes:

  1. a Pedagogia das Cores atravessou fronteiras com mais facilidade do que eu imaginava.
  2. e eu, aparentemente, atravessei situações dignas de roteiro de suspense… sem nem perceber no começo.

Tudo começou de forma elegante: um convite vindo da Colômbia. Três cidades — Bogotá, Cali e Cartagena — três workshops e um entusiasmo que não cabia na mala… o que já era um problema, porque eu estava com duas malas de 23 quilos cada. Não era excesso de bagagem, era excesso de propósito.

Cheguei à noite, depois de uma negociação silenciosa com a alfândega que me fez sentir uma contrabandista de lápis de cor. Made, minha anfitriã, já estava aflita com a demora — o que, olhando em retrospectiva, era só o início de uma sequência de preocupações justificáveis.

No hotel, ela e o marido fizeram algo que, na época, achei apenas zelo. Hoje eu chamaria de inspeção tática completa, incluindo olhar embaixo da cama — o que me fez pensar: “ou eles são muito cuidadosos… ou sabem de algo que eu ainda não sei”.

Fui orientada a não sair do hotel. O que, convenhamos, já não combina muito com turismo.

No dia seguinte, um carro branco me buscou. Com placa confirmada, motorista gentil e destino aparentemente civilizado: um restaurante. Almocei com Made, conheci a cidade, museus… tudo dentro da normalidade que antecede grandes histórias.

Até chegar o grande dia do primeiro workshop.

A escola era linda, organizada, com teatro, coordenadora pedagógica simpática — até demais — e uma diretora que parecia ter coisas mais importantes para fazer do que interagir com a própria equipe. Até aí, tudo bem.

Foi quando surgiram alguns homens muito bem-vestidos, com crachás de uma universidade importante. Pesquisadores interessados na minha metodologia. Pensei: “Pronto. Internacionalizei.”

Ingenuidade é um estado de espírito muito bonito.

Em poucos minutos, Made e a diretora saíram, e eu fiquei organizando meus materiais. Eis que a coordenadora aparece e diz que a diretora queria falar comigo. Um dos “pesquisadores” se oferece para me levar.

E eu fui.

Subimos rampas, andares… até que, em um gesto quase teatral, ele aponta uma sala. Quando olho para trás… ele simplesmente desapareceu.

Sumiu.

Assim. Sem aviso prévio.

Fiquei parada, olhando para o nada, com a sensação de que tinha entrado em um episódio de série — só que sem roteiro.

O colégio era enorme. Eu, perdida. Meu espanhol, em modo “boa sorte”. Uma funcionária não me entendeu. Outra me ajudou. Cheguei à secretaria.

Voltei ao teatro com Made.

E então…

Não estavam mais lá:
– os “pesquisadores”
– a coordenadora
– meu notebook
– meu celular

Mas, curiosamente, deixaram:
– meu passaporte
– meu dinheiro
– meus cartões

Ou seja, até o crime foi seletivo.

Fiquei transtornada. Liguei para meu marido, que sugeriu algo sensato: “Volta imediatamente.”

Mas ali surgiu uma versão minha que eu mesma não conhecia tão bem:

— “Eu tenho uma missão. Eu vou cumprir.”

E fui.

Com um pen drive e uma coragem meio inconsequente, meio profissional.

No dia seguinte, veio a informação que transformou o episódio de furto em capítulo de investigação: havia sido uma tentativa de sequestro, ligada a um grupo revolucionário.

Aparentemente, o rapaz que me guiou resolveu improvisar, talvez fosse um infiltrado… e me perder dentro da escola foi a melhor decisão da vida dele — e da minha.

Seguimos para Cartagena.

E como se o universo quisesse confirmar que eu não estava exagerando, no táxi, ouvimos no rádio: tentativa de sequestro de uma congressista brasileira.

A congressista era eu! Mas, vida que segue.

O workshop aconteceu. Com sucesso. Com emoção. E provavelmente com mais segurança do que o necessário — ou exatamente o necessário.

No dia seguinte fomos para Cali. E lá, curiosamente, havia mais seguranças do que professores. A notícia tinha chegado antes de mim.

Mas o trabalho… esse foi lindo.

E no dia de ir embora, em Bogotá, como se faltasse um último toque surreal, paramos em um McDonald’s — cenário improvável para encontros políticos — mas lá nos encontramos com líderes políticos, reunidos… e até o ex-presidente.

Entre um hambúrguer e uma decisão eleitoral, pensei:

“Definitivamente, essa viagem não estava em nenhum roteiro pedagógico tradicional.”

Voltei com menos um notebook, menos um celular…
Mas com uma história que vale por um livro inteiro.

E com a certeza de que educar transforma.
Inclusive… a própria educadora.

Solange Depera Gelles

Um causo de professor